O gol contra dos craques da bola

Segue abaixo a matéria que saiu no “Diario de Pernambuco” – 15/06, sobre as financias dos atletas, educação financeira e dicas de investimentos, com a participação de Henning e William “Capita”, sócios da Redoma Capital.
Tatiana Nascimento – Diário de Pernambuco
Publicação: 15/06/2013 17:00 Atualização: 15/06/2013 14:11
Jogadores ganham muito dinheiro, mas não sabem como administrar as finanças. Muitos acabam sem nada.
Garrincha era gênio nos gramados. Mas fez tudo errado na vida financeira. Foto: Arquivo/JCom/D.A Press
Garrincha era gênio nos gramados. Mas fez tudo errado na vida financeira. Foto: Arquivo/JCom/D.A Press

Mané Garrincha, bicampeão mundial de futebol em 1958 e 1962, era de origem humilde, ganhou muito dinheiro em um curto espaço de tempo, gastava e bebia como se não houvesse amanhã. Após a conquista do campeonato na Suécia, ele voltou para casa, bebeu com os amigos, jogou pelada, entrou num armazém (carregando uma sacola de dólares) e pagou todas as contas em atraso dos moradores. Garrincha morreu aos 49 anos, sem nada, vivendo da ajuda de amigos.

O anjo das pernas tortas tornou-se um dos maiores exemplos do craque de bola que se torna um jogador de várzea na hora de administrar o próprio orçamento. É o sujeito que gastam sem limites, não poupa ou investe de forma errada, por inexperiência ou por ouvir conselhos duvidosos de “amigos”. Um levantamento da consultoria alemã Schips Finanz aponta que metade dos atletas encerra a carreira na falência.

Que ninguém se surpreenda se ler no futuro uma notícia sobre a dificuldade financeira enfrentada por alguma das estrelas da Copa das Confederações, que começa neste sábado (14), com o jogo entre Brasil e Japão. “Os brasileiros, em geral, são muito mal educados financeiramente. Ninguém nos ensina a cuidar do dinheiro. No caso do jogador, é ainda pior, já que ele ganha muito dinheiro em um curto espaço de tempo”, afirma o assessor de investimentos Henning Sandtfoss.

Henning Sandtfoss é assessor de investimentos e trabalha com atletas há dois anos. Foto: Arquivo pessoal
Henning Sandtfoss é assessor de investimentos e trabalha com atletas há dois anos. Foto: Arquivo pessoal

Atuando no mercado financeiro há 12 anos, Henning passou a trabalhar com atletas há dois, após montar com William Machado, ex-capitão do Corinthians. O consultor explica que os erros dos jogadores começam cedo, já no primeiro “investimento” feito pelo atleta quando começa a ganhar dinheiro: a compra de um carrão. E o possante geralmente é trocado com mais rapidez do que um drible de Lionel Messi.

Os erros continuam com a insistência em colocar boa parte, quando não todo o dinheiro, no mercado de imóveis. “Não problema em investir em imóveis. Há problemas quando ele fica desocupado, porque passa a ter despesa. Também não pode ser um investimento único. Tem que ser parte da carteira de investimentos. Por isso sugerimos a diversificação, respeitando o cenário e o perfil do cliente”, afirma Henning.

Mulheres demais (e o pagamento de muitas pensões) também acabam drenando as finanças dos jogadores. William Machado confirma que o assédio é muito grande. Assim como é grande o número de “amigos” que se aproximam com aquela dica legal. “Boi Gordo, Avestruz Master. Muita gente perdeu dinheiro com aquilo”, lembra Henning. William acredita que a solução para evitar (ou minimizar) os erros é começar a educação financeira dos jogadores já na base. Confira abaixo uma entrevista com o ex-atleta de 36 anos, que parou de jogar no final de 2010.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 (Arquivo pessoal)

Como surgiu o seu interesse em finanças?

Sempre fui bom com números na escola. Era muito bom em matemática. Meus pais sempre cobraram que eu mantivesse os estudos, mesmo jogando. Estudava em escola pública. Acabei entrando para a faculdade por não ter certeza se futebol me daria um retorno profissional satisfatório. Acabei optando por ciências contábeis. Cursei por três anos em Belo Horizonte. Quando me tornei profissional, passei a ser emprestado para outros clubes e tranquei a faculdade. Cheguei a transferir depois. Faltou um ano para me formar.

Você passou anos jogando em clubes menores, até ir para o Grêmio e, depois, para  o Corinthians. Como lidou com a questão financeira?

Tive uma reviravolta na minha carreira quase aos 30 anos. Joguei por nove anos em equipes pequenas, ganhando salários menores, tendo que me adequar aquela realidade e vendo que era possível ter uma vida digna com um salário menor. Quando fui para os times grandes, meu salário aumentou uns 400%. Tive uma experiência amarga quando era universitário. Entrei no cheque especial porque tinha salário para receber do time e o pagamento atrasou. Entrei nessa bola de neve. Hoje já é ruim, mas imagine há 14, 15 anos, quando a Selic era 30%, 40% ao ano? Hoje estamos falando de 8%. Fiquei devendo R$ 500, R$ 600 ao banco.

Você aprendeu a lição?

Aprendi que tinha de fazer uma reserva, independentemente de quanto ganhava. Percebi, quando comecei a ganhar mais dinheiro, que não poderia viver de acordo com aquele padrão, porque eu não teria aquele salário para o resto da vida. Então quando eu passei a ganhar mais, melhorei só um pouco o padrão. Eu ganhava dez vezes mais, mas eu poupava. Eu sabia que tinha um horizonte curto para acumular o máximo. Lendo e ouvindo sobre quem fez bobagem, fui aprendendo. Agora pretendo concluir o curso de ciências contábeis. Neste ano vou fazer um curso para aprimorar meu inglês e visitar clientes fora. No ano que vem eu concluo o curso. Talvez eu faça metade no Brasil e metade fora.

Enquanto você jogava, quais eram os seus investimentos? Você mudou muito o seu perfil durante os anos?

Eu não tinha um profissional ao meu lado. Trabalhava sempre com banco. Consegui evitar algumas armadilhas, como título de capitalização, é que horrível. Fiz CDB. Ganhei um dinheiro razoável num IPO (oferta inicial pública de ações de uma empresa). Fiz previdência privada. Por falta de informação, fiz num volume muito maior do que poderia ter feito.

E hoje, quais são seus investimentos?

Hoje tenho um pouco em imóveis, em eucalipto, tenho em produtos financeiros, mais do que nas outras coisas: ações, LCI, LCA. Minha carteira é bem diversificada para poder mitigar o risco. Se estiver tudo muito concentrado, pode ganhar muito ou pode perder muito. Todo mundo quer ganhar muito e arriscar pouco. Não tem mágica no mercado. A maioria das pessoas tenta a diversificação para se proteger.

O brasileiro é mal educado financeiramente. Não é um “privilégio” do jogador. O que você costuma falar para os mais jovens, que estão entrando na profissão agora?

Nenhum curso universitário tem uma disciplina de educação financeira. O que acontece com o jogador de futebol é um reflexo do que acontece com o brasileiro, só que ele é mais exposto. Quanto mais cedo você começa a poupar, mais cedo você tem a sua reserva formada. Hoje em dia ser milionário é difícil. É difícil viver de renda, com os juros cada vez mais baixos.

O seu futuro vai ser tranquilo financeiramente?

Acredito que sim. Até hoje não fiz muita bobagem. Se começar a fazer daqui para frente, não vai adiantar nada o que eu poupei e investi. É uma disciplina constante.

Link:http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/economia/2013/06/15/internas_economia,444974/o-gol-contra-dos-craques-da-bola.shtml

 

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Siga-me no twitter: @fnmarques

 

Fagner Nogueira Marques é sócio fundador da Nogueira Marques Consultores Associados e ministra palestras sobre educação financeira para empresas e atletas, principalmente, jogadores de futebol. É bacharel em Direito pela Faculdades Metropolitanas Unidas – FMU, advogado regularmente inscrito nos quadros da OAB/SP, bacharel em Ciências Econômicas pela Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado – FECAP. Possui a certificação da Anbid CPA-20 e também a certificação de Agente Autônomo de Investimentos, concedida pela ANCORD e pós graduação em Psicologia Econômica pela USP (Fipecafi).

Ex-jogador de futebol, economista e advogado. Fagner Marques trabalha como consultor financeiro pessoal, faz atendimentos presenciais e por Skype e ministra palestras de educação financeira para diversos públicos.

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